Bastidores do Samba
Rildo Hora
Sete Grammys, mais de cem discos de ouro e platina e uma gaita que atravessou o samba, o soul e o jazz. O produtor por trás de meio século de música brasileira.
Foto: 25º Prêmio da Música Brasileira — CC BY 2.0
Era uma criança de seis anos em Madureira que pegou uma gaita e aprendeu a tocar sozinha, sem professor. Oito décadas depois, aquele menino teria sete Grammys Latinos, mais de cem discos de ouro e platina, e o solo de gaita mais conhecido da música brasileira.
Quem é Rildo Hora?
Rildo Alexandre Barreto da Hora nasceu em Caruaru, Pernambuco, em 20 de abril de 1939. É gaitista, violonista, cavaquinista, cantor, compositor, arranjador e — sobretudo — um dos produtores musicais mais importantes da história da música brasileira.
A primeira professora foi a mãe, Cenira, que lhe ensinou piano e teoria musical. Em 1945 a família mudou-se para o Rio de Janeiro e foi morar em Madureira. Foi ali, aos seis anos, que ele pegou uma gaita pela primeira vez — e aprendeu a tocá-la por conta própria.
O bairro fez o resto da formação. Menino ainda, frequentava o botequim do Seu João e o bar do Nozinho, onde ouvia Candeia, Manacéa e Chico Santana, sambistas da Portela. Aos doze anos venceu o Concurso das Gaitas Hering, na Rádio Mauá. Mais tarde estudaria com o maestro Guerra-Peixe, que chegou a escrever uma peça especialmente para ele.
A partir de 1968 começou a trabalhar como produtor, primeiro na RCA. É nessa função que se tornou peça central do samba brasileiro: assinou a produção de discos de Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Almir Guineto e dezenas de outros nomes, além de ter lançado Dudu Nobre em carreira solo.
Trajetória
Linha do Tempo
De uma gaita aprendida sozinha em Madureira, em 1945, aos sete Grammys Latinos: oito décadas de música brasileira vistas de dentro do estúdio.
1939
Nascimento em Caruaru
Nasce em 20 de abril, em Pernambuco. A mãe, Cenira, é sua primeira professora de piano e teoria musical.
1945
Madureira e a primeira gaita
A família muda-se para o Rio. Aos seis anos, ele pega uma gaita e aprende a tocar sozinho, sem professor.
1951
Concurso das Gaitas Hering
Aos doze anos vence o concurso promovido pela Rádio Mauá — seu primeiro reconhecimento público como instrumentista.
Anos 1950
Aulas com Guerra-Peixe
Estuda com o maestro e compositor Guerra-Peixe, que escreve para ele a peça “Suite Quatro Coisas”.
1958
Malabaristas da Gaita
Forma o trio que leva o instrumento a rádios e palcos, num período em que a gaita ainda era raridade na música brasileira.
1965–67
Na estrada com Elizete Cardoso
Acompanha a cantora em turnê nacional — a escola prática que o prepararia para o trabalho de estúdio.
1968
Começa a produzir na RCA
Assume a função que definiria sua trajetória. Dali em diante, seu nome apareceria nos créditos de centenas de discos.
1978
“De Pé no Chão”
Produz o disco de Beth Carvalho que apresenta o pagode ao Brasil, gravado com a base instrumental do Cacique de Ramos.
1989
Lança Dudu Nobre
Apresenta ao mercado mais um nome do samba — parte do papel de descobridor que exerceu ao longo de décadas.
2002
“Deixa a Vida Me Levar”
Produz o disco mais vendido de Zeca Pagodinho, vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode.
Hoje
Sete Grammys Latinos
Acumula sete Grammys Latinos e mais de 150 discos de ouro e platina — um dos produtores mais premiados da música brasileira.
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O instrumentista
A Gaita
A gaita nunca foi instrumento de samba. É pequena, portátil, associada ao blues americano e à música de estrada — quase o oposto do que uma roda de samba pede. Rildo Hora passou a vida provando que essa fronteira não existia.
Aprendida sozinho, aos seis anos
A formação musical começou em casa: a mãe, Cenira, ensinou-lhe piano e teoria. Mas a gaita foi descoberta por conta própria, em Madureira, logo depois que a família se mudou de Pernambuco para o Rio, em 1945. Ele tinha seis anos e nenhum professor.
O reconhecimento veio cedo. Aos doze anos venceu o Concurso das Gaitas Hering, promovido pela Rádio Mauá. Anos depois estudaria com o maestro Guerra-Peixe, um dos nomes centrais da música erudita brasileira — que chegou a compor para ele a peça “Suite Quatro Coisas”, escrita especialmente para gaita.
Esse detalhe diz muito. Um compositor erudito escrevendo para um instrumento popular, tocado por um garoto do subúrbio carioca, é o tipo de cruzamento que explica a carreira inteira de Rildo Hora.
O som que atravessou gêneros
Em 1958 formou o trio Malabaristas da Gaita, levando o instrumento a rádios e palcos num período em que ele era raridade na música brasileira. Entre 1965 e 1967 acompanhou Elizete Cardoso em turnê nacional — a escola prática que o prepararia para o trabalho de estúdio.
Mas o registro mais ouvido de sua gaita não está em disco de samba nem de instrumental: está no solo de “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia. É dele também a gaita de “Estácio, Holy Estácio”, de Luiz Melodia. Duas gravações que milhões de brasileiros conhecem de cor sem saber quem está tocando.
Ouça o solo
“Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia. A gaita que entra na canção é de Rildo Hora — provavelmente o solo mais conhecido de um instrumento que quase ninguém associa à música brasileira.
Reconhecimento fora do país
Como instrumentista, Rildo Hora chegou a ter obra própria lançada nos Estados Unidos. Seu álbum “Espraiado” saiu pelo selo Milestone e foi apontado pela crítica americana entre os dez melhores lançamentos de latin jazz do ano.
É a face menos conhecida de sua trajetória. No Brasil, o nome de Rildo Hora aparece nos créditos de produção de centenas de discos alheios — mas há uma obra solo, pequena e pouco divulgada, em que ele é o artista principal.
O que fica
Legado
O nome de Rildo Hora quase nunca está na capa. Está na letra miúda dos créditos, na linha que diz “produção musical” — e é de lá que ele redesenhou o som do samba brasileiro nas últimas cinco décadas.
01
A gaita em território improvável
Levou um instrumento associado ao blues e à música de estrada para o centro da música popular brasileira. É considerado, entre críticos e no meio musical, um dos maiores gaitistas do país — e o solo de “Azul da Cor do Mar” é conhecido por milhões que nunca souberam quem tocava.
02
A transformação do samba nos anos 1980
Produziu mais de trinta discos do Grupo Fundo de Quintal, a partir de “O Mapa da Mina”. A Enciclopédia Itaú Cultural credita a ele, por esse trabalho, uma transformação no samba a partir daquela década — o momento em que o som das rodas do Cacique de Ramos virou padrão de estúdio.
03
O descobridor
Lançou Dudu Nobre em carreira solo em 1989 e, ao longo de décadas, apresentou ao mercado nomes que chegavam pelas rodas e não pelas gravadoras. Em 2000, o “Casa de Samba volume 4” juntou a Velha Guarda da Portela com Alcione, Cássia Eller e João Bosco em encontros que ninguém tinha imaginado.
04
O produtor mais premiado do samba
Sete Grammys Latinos, todos vindos de trabalhos com Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e Beth Carvalho. Somados a mais de cem discos de ouro, platina e diamante, formam a folha corrida de alguém que atravessou meio século sem perder relevância comercial.
05
A memória dos esquecidos
No começo da carreira, enquanto os produtores novatos disputavam a jovem guarda, ele assumiu quem estava fora de moda: Orlando Silva, Vicente Celestino, os nomes do bel-canto que haviam feito sucesso décadas antes. É uma escolha que diz muito sobre o critério que ele levaria para o samba.
Quando ele é o artista
Discos Solo
Rildo Hora assinou a produção de centenas de discos alheios — e uma obra própria pequena, pouco divulgada e quase inteiramente instrumental. É nela que a gaita deixa de ser detalhe de arranjo e assume o primeiro plano.
Samba Made in Brazil
Gravado em pleno auge da bossa nova e do boom dos trios de jazz, quatro anos antes de ele começar a produzir. Um conjunto de instrumentais leves em que a gaita ocupa o lugar de instrumento solista — a mesma função que o órgão elétrico cumpria nos discos de Walter Wanderley.
Sanfona e Realejo
O álbum “Espraiado”, de 1992, é o trabalho mais importante da obra própria de Rildo Hora: lançado pela Caju Music, foi distribuído nos Estados Unidos pelo selo Milestone em 1994 e apontado pela crítica americana entre os dez melhores lançamentos de latin jazz do ano. O disco original não está no streaming, mas a faixa-título — uma composição dele — pode ser ouvida aqui.
Rildo Hora e Cia de Cordas
Um dos dois CDs que a gravadora Visom reuniu na série Virtuoso — o outro é o registro com o violonista Romero Lubambo. É o Rildo instrumentista em formato de câmara, longe tanto do samba de estúdio quanto do jazz do Espraiado.
Ano Novo
Lançado na Sala Cecília Meireles, reúne composições dele em parceria com Sérgio Cabral, Martinho da Vila, Clóvis Mello e Elton Medeiros, ao lado de clássicos como “Morro Velho”, de Milton Nascimento, e “Cabuloso”, de Jacob do Bandolim. Só gaita e piano.
Quatro discos que quase ninguém ouviu, feitos por alguém cujo trabalho milhões de brasileiros escutam sem saber.
Do outro lado do vidro
Produções Marcantes
São centenas de discos assinados em quase seis décadas. Estes cinco marcam momentos em que a produção de Rildo Hora não apenas registrou o samba — mudou o rumo dele.
De Pé no Chão
O disco que apresentou o pagode ao Brasil. Rildo produziu a gravação levando ao estúdio a base instrumental do Cacique de Ramos — Almir Guineto no banjo, Ubirany no repique de mão, Sereno no tantã. Vendeu mais de 500 mil cópias e mudou os rumos do gênero.
Martinho da Vila
Memórias de um Sargento de Milícias
Uma das primeiras grandes produções de Rildo Hora, três anos depois de ele entrar na RCA. Martinho da Vila seria, dali em diante, um dos parceiros mais constantes de sua carreira — os dois chegariam a compor juntos.
Grupo Fundo de Quintal
O Mapa da Mina
A partir deste disco, Rildo assumiu a produção do Fundo de Quintal e não largou mais: foram mais de trinta álbuns juntos. A Enciclopédia Itaú Cultural credita a esse trabalho uma transformação no samba a partir dos anos 1980 — o momento em que o som das rodas virou padrão de estúdio.
Deixa a Vida Me Levar
O disco mais vendido e mais premiado da carreira de Zeca Pagodinho, com produção de Rildo Hora. A faixa-título virou hino nacional e o álbum rendeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode — um dos sete que ele guarda em casa.
Vários artistas
Casa de Samba, volume 4
O projeto em que Rildo Hora exerce o papel de curador: juntou a Velha Guarda da Portela com Alcione, Dudu Nobre com João Bosco, Noite Ilustrada com Cássia Eller. Encontros que ninguém tinha imaginado, e que só um produtor com trânsito em todos esses mundos poderia articular.
Cinco discos, cinco artistas diferentes, meio século de distância entre o primeiro e o último — e o mesmo nome na linha de produção.
Dúvidas comuns
Perguntas Frequentes
As perguntas que o público mais faz sobre o produtor por trás de meio século de samba brasileiro.
Quem é Rildo Hora?
Rildo Alexandre Barreto da Hora é gaitista, violonista, cavaquinista, compositor, arranjador e produtor musical brasileiro, nascido em Caruaru, Pernambuco, em 20 de abril de 1939. É considerado um dos produtores mais importantes da história do samba, com sete Grammys Latinos e mais de cem discos de ouro, platina e diamante.
Quem toca a gaita de “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia?
Rildo Hora. É provavelmente o solo de gaita mais conhecido da música brasileira. Ele também assina a gaita de “Estácio, Holy Estácio”, de Luiz Melodia, gravada no álbum “Pérola Negra”, de 1973.
Quais discos Rildo Hora produziu?
São centenas ao longo de quase seis décadas. Entre os mais marcantes estão “De Pé no Chão” (1978), de Beth Carvalho, “Deixa a Vida Me Levar” (2002), de Zeca Pagodinho, e mais de trinta álbuns do Grupo Fundo de Quintal. Também produziu discos de Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, João Bosco e Luiz Gonzaga.
Quantos Grammys Rildo Hora tem?
Sete Grammys Latinos, todos vindos de trabalhos com artistas do samba: Zeca Pagodinho, Grupo Fundo de Quintal e Beth Carvalho. Ele os guarda num cômodo da própria casa, na Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, ao lado de mais de cem discos de ouro, platina e diamante.
Como Rildo Hora aprendeu a tocar gaita?
Sozinho, aos seis anos, tirando de ouvido os temas que tocavam no rádio. Antes disso, teve como professora a própria mãe, Cenira, que lhe ensinou piano e teoria musical. Mais tarde estudaria harmonia, contraponto e composição com o maestro Guerra-Peixe, que chegou a escrever e orquestrar uma suíte especialmente para ele.
Qual a relação de Rildo Hora com o Fundo de Quintal?
Ele produziu mais de trinta discos do grupo, a partir do quinto álbum, “O Mapa da Mina”. A Enciclopédia Itaú Cultural credita a esse trabalho uma transformação no samba a partir dos anos 1980 — o momento em que a sonoridade nascida nas rodas do Cacique de Ramos, com Almir Guineto e companhia, se tornou padrão de estúdio.
Rildo Hora tem discos próprios?
Sim, embora pouco divulgados. O mais importante é “Espraiado” (1992), lançado pela Caju Music e distribuído nos Estados Unidos pelo selo Milestone em 1994 — a crítica americana o apontou entre os dez melhores lançamentos de latin jazz do ano. Também gravou “Samba Made in Brazil” (1964), “Rildo Hora e Cia de Cordas” (1998) e “Ano Novo”, entre outros.
Rildo Hora já tocou música erudita?
Sim. Em 1987 executou o Concerto para Harmônica e Orquestra, de Villa-Lobos, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, sob regência do maestro Davi Machado. No ano seguinte interpretou a suíte que Guerra-Peixe havia escrito e orquestrado especialmente para ele.
Onde Rildo Hora nasceu?
Em Caruaru, Pernambuco, em 1939. A família mudou-se para o Rio de Janeiro em 1945, quando ele tinha seis anos, e foi morar em Madureira — bairro onde teve contato com sambistas da Portela como Candeia, Chico Santana e Manacéa.
Quem Rildo Hora revelou?
Lançou Dudu Nobre em carreira solo em 1989 e produziu o primeiro disco de vários artistas, entre eles João Bosco, em 1973. Também assinou o “Casa de Samba volume 4” (2000), projeto que reuniu a Velha Guarda da Portela com Alcione, Cássia Eller e João Bosco em duplas inusitadas.
Fontes
Referências
As informações deste artigo foram apuradas a partir das fontes abaixo. Onde elas divergem — como no número de discos de ouro e no título da suíte escrita por Guerra-Peixe — o texto adota a versão mais conservadora ou descreve o fato sem nomeá-lo.
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Enciclopédia Itaú Cultural — verbete “Rildo Hora”
Fonte principal do artigo. Traz dados familiares, a formação musical, a relação com Guerra-Peixe e a avaliação de que o trabalho dele com o Fundo de Quintal transformou o samba a partir dos anos 1980.
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Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — verbete “Rildo Hora”
Detalhamento da obra solo, com a ficha completa do álbum “Espraiado” e do CD “Ano Novo”, além do histórico de produções ano a ano.
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Verbete enciclopédico com a cronologia de produções, o registro do convite de Geraldo Santos para a RCA em 1968 e a lista de discos próprios.
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O Povo — “Expoente do samba, Rildo Hora celebra a reinvenção do ritmo”
Entrevista publicada em dezembro de 2023, origem das declarações dele sobre a formação em Madureira, a pesquisa da música negra e a relação com o samba.
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Portal O São Gonçalo — “Rildo Hora deixou carreira solo e ganhou os holofotes como produtor musical”
Reportagem com a contagem de prêmios — sete Grammys Latinos e cem discos de ouro, platina e diamante — e a informação de que os troféus ficam guardados em sua casa, na Lagoa.
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TV Câmara — “Rildo Hora (gaitista, produtor e arranjador)”
Perfil que registra a lista de CDs solo e a avaliação de colegas gaitistas, entre eles o belga Toots Thielemans, que o aponta como um dos principais instrumentistas em atividade no Brasil.
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Arlindo Cruz
Doze anos no Fundo de Quintal, grupo cujos discos Rildo produziu por três décadas.
Ler artigoIlustrações dos artistas geradas por inteligência artificial.